12 dezembro, 2006

Um sítio a preservar?

Túnel das pinheiras, E.N. 114, Almeirim. A forma moldada à função, pela mão da natureza. Será que num qualquer dia um fósforo criminoso ou uma motosserra de "serviço público" derrubará este monumento? O interesse concelhio não estará aqui também em jogo?...

Os verdadeiros artistas do futebol.

Quando, como nos dias de hoje, se fala tanto do futebol pelos piores motivos, envolvendo em geral actores acessórios ao mesmo, e uma pessoa se encontra dividida entre o fascínio pela beleza estética de uma actividade humana que é um dos paradigmas da actual sociedade e o repúdio por tudo o que ela também representa de falsidade, corrupção, interesses mesquinhos e paixões exacerbadas e doentias, resta-nos acreditar que ainda existem pessoas e desportistas pelos quais vale por uma prática desportiva que, num futuro não muito distante — através da enorme força atractiva que exerce em especial sobre a juventude — esteja ao serviço da humanidade e engajado inequivocamente na resolução dos grandes problemas sociais contemporâneos.
São artistas como Samuel Eto’o e Frederic Kanouté que devem ser apontados como exemplo aos nossos jovens desportistas. São eles os verdadeiros Artistas do futebol e do humanismo, e não aqueles “artistas” que, sem saberem sequer equilibrar-se para dar um pontapé na bola, vão sugando as veias do desporto em benefício próprio.

Imigrantes
Nuno Ribeiro, Madrid


Não é engano. Antes pelo contrário. Na bola também se pode falar de coisas sérias. O pontapé pode servir para dar a conhecer carências. Injustiças. E encontrar soluções. Nem que sejam à pequena escala. E, então, falar, quando menos se espera dos problemas dos imigrantes.Há dois tipos de artistas. Os que andam cegos pela notoriedade concedida pelo mais belo jogo. E os que o praticam e vivem não esquecendo o mundo. Os primeiros, perdem-se em honrarias. Em festas sociais. Em gestos de mau gosto e de muito acumulação de riqueza. Os do segundo caso, são didácticos sem serem chatos. Lançam alertas nos mais inesperados fóruns e espaços.É assim que, por exemplo, num jornal desportivo aparece o tema da imigração africana. Quem chama a atenção para o drama é gente da bola, com a vida resolvida, mas com um arguto sentido da justiça - o que deixa muito eco às suas preocupações. Ser solidário é o lema de Samuel Eto"o, o mago dos Camarões que joga no Barcelona. Eto"o denuncia o que há de errado em Espanha: o racismo. Não é caso único de alertas. Frederic Kanouté nasceu há 29 anos nos arredores da cidade francesa de Lyon. Passou, sem grande glória, pelo futebol inglês e esta é a sua segunda época no Sevilha. Não vai nada mal. Comanda com Ronaldinho e o argentino Diego Milito, do Saragoça, a lista de melhores goleadores: com 11 êxitos.Kanouté é filho de país do Mali. Que emigraram para França à procura de melhor vida. Ele encontrou-a na bola: o seu contrato de rescisão é de 25 milhões de euros e o que ganha é inconfessável. Mas Kanouté não esquece de onde veio. De África.E foi assim que, na véspera do jogo do Sevilha com o Real Madrid, numa entrevista a um desportivo, preferiu falar da sua longínqua origem a dizer as habituais banalidades sobre o jogo. Inteligente, levou a conversa para o campo que lhe interessava. "É difícil ir ao Mali e não sentir-se chocado com a pobreza", disse. Uma vez feito o diagnóstico pessoal, o astro da bola continua a falar da vida: "Há que trabalhar com a gente de África, ajudar o desenvolvimento e acabar com a injustiça dos imigrantes."De bola, pouco ou nada disse na entrevista. Kanouté prefere falar da vida. E jogar futebol sem transcendências linguísticas. E assim fez. Marcou o primeiro dos seus tentos ao Real Madrid. O segundo golo, que garantiu a vitória, foi obra de arte do uruguaio Chaventón. Dois de fora, imigrantes de luxo, com arte. E memória.

Público 12/12/2006

17 novembro, 2006

Corrigindo Beethoven


Um filme a não perder.

Ed Harris no papel de Beethoven


Já está a correr o último filme sobre o genial compositor. De Agnieszka Holland, Corrigindo Beethoven retrata o último ano de vida do mestre. Com Ed Harris (no papel de Beethoven) e Diane Kruger, é mais uma visão sobre a personalidade desta extraordinária figura. Vamos ver...mais que não seja, pela música.

16 novembro, 2006

Tesouros: Rio Tuela (Vinhais-Trás-os-Montes)


Composição com água e pedras.

Um criador imemorial que, com as torrentes de Inverno, foi moldando o leito do rio. A pedra, agora suave e enformada, ilude-nos num abstraccionismo de espelhos de água.






Trecho do Rio Tuela (foto minha).

22 outubro, 2006

España, non te aburres.


Estes iberos estão todos loucos. Bastou uma sondagem a uns míseros 741 portugueses, na qual pouco mais de duzentos (27,7 %) responderam que “preferiam ser espanhóis”, para no outro lado da fronteira uns quantos coitados dessem pulos de contentamento e corressem a averiguar se também os espanhóis gostariam de uma união com Portugal. A pergunta foi feita a 588 “hermanos” dos quais, espanto dos espantos, 43,4 % responderam sim, que Portugal era muito bem integrado na grande Espanha. Só 43,4 % ?... Afinal ainda há esperança para Espanha. Andava eu convencido que do lado de lá pelo menos 97% ( os 3% restantes seriam dos habituais “não sei”, “não tenho conhecimento”) estavam desertinhos por nos ferrar o dente. E digo ferrar o dente por isso mesmo, porque os “muchachos” que por cá demandam vêm à procura de comida (bacalao, cozido à ... ) a sério para esquecerem o desastre completo que é comer num qualquer restaurante espanhol. Se eles cozinhassem tão bem como falam alto!.. Pois é com profundo agrado que registo que tão poucos espanhóis se queiram misturar com a malta portuga. Parece que aquela gente começa a demonstrar algum bom senso, pois se eles não se entendem a eles próprios porque quereriam mais lenha na fogueira?
Quanto aos 27,7 % de portugueses que responderam não se importarem de ser espanhóis, esses estão cheios de razão, e quem não os compreende (como os espanhóis não compreenderam) são aqueles que, não sendo de cá, não percebem as idiossincrasias da nossa gente. Com os ventos que agora correm na terra lusa, quando o látego começa a atingir todos, há sempre portugueses desertos por fugir, seja para Espanha seja para outro qualquer lugar. Por isso penso que seria interessante e instrutivo fazer uma sondagem a indagar que percentagem de portugueses gostaria que o seu país se tornasse no 51º estado americano? Não sei qual o resultado, mas avanço uma probabilidade: 25% contra ( 8% dos reformados que ainda votam no PCP, 2% de bloquistas de base que usam burka sempre que se viram para ocidente, e 15% de socialista que ainda mantêm algum bom-senso) e 75% a favor (funcionários públicos, alguns autarcas, professores, médicos e juízes, somando os todos os madeirenses que começam a temer pelo subsídio do Alberto João. Ah, ia-me esquecendo, o Pacheco Pereira também...).

Paul Cézanne - Centenário da sua morte

As Grandes Banhistas

Com 67 anos de idade, morreu vítima de tuberculose. Artista maior das paisagens e das naturezas mortas — embora tenham também pintado figuras humanas em retratos e grupos — foi um impressionista que criou uma linguagem própria percursora da arte moderna.
Filho de um rico homem, que ao morrer lhe deixou uma considerável fortuna, conviveu com alguns grandes nomes da arte, como o escritor Émile Zola ( amigo de infância e companheiro de escola) ou com os também pintores Camille Pissarro (seu mestre e patrono), Monet e Renoir . Mas Cézanne era um ser depressivo, solitário, excêntrico e muito obstinado, a quem a fortuna do papá parece não ter trazido felicidade alguma, a não ser o facto, pouco normal, de não ter vivido e morrido na miséria como a maioria dos seus colegas artista da época. Nós congratulamo-nos, porque esse perfil psicológico deixou-nos um acervo de obras extraordinárias.
E como estamos no Outono e o tempo corre feio aqui vos deixo um alerta: Cézanne tinha por hábito pintar ao ar livre na sua Aix-en-Provence natal, mesmo em Outubro. Exposto ao frio e à chuva, primeiro veio uma gripe, depois uma pneumonia e por fim a morte nesse dia 22 de Outubro de 1906.
Como entrámos na “época oficial” das gripes e a tuberculose ainda mata bastante por cá ... cuidemo-nos nós, que somos simples mortais, distantes de Cézanne que já tinha em si o gene da imortalidade.

20 outubro, 2006

Primeiro aviso à navegação: não sou músico nem toco qualquer instrumento. Nem de uma simples harmónica de boca consigo extrair qualquer coerência sonora. Apenas assobio e gorjeio canções que em mim ficaram impressas. Mas tenho ouvido. Pode dizer-se que sou um melómano. A música foi uma descoberta de jovem adulto, a par com o interesse pelas singularidades da sociedade que me cercava. Aprendi mais democracia nas sinfonias de Beethoven que nos discursos dos políticos. Neste momento, enquanto escrevo, ouço o segundo andamento da 7ª Sinfonia de Beethoven, e tudo se encaixa. Mesmo nos tempos difíceis das injustiças e das dúvidas nunca necessitei de anti-depressivos ou outra qualquer droga. Em Beethoven encontro a força e o sentido vida, Mozart mostra-me como é bom estar vivo e Mahler mexe com o mais íntimo de mim, porque me questiona. A sociedade irrequieta-me, a música aquieta-me.