14 fevereiro, 2013

OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM.

É verdade que os cavalos também se abatem. Como se abatem os gatos e se abandonam os cães. Perde-se nos confins da memória da sociedade dos humanos o início da sua convivência com os animais que eles domesticaram: para ajuda na sua sobrevivência quotidiana, como arma de guerra e também como companhia. Mas também pelo amor que se tem a determinado animal porque encontramos nele a amizade impossível com alguns humanos e sentimos que na sua companhia, quase sempre, somos seres mais perfeitos. É sempre lamentável e triste que uma sociedade tenha de abater os seus animais domésticos, porque eles fazem parte integrante desta sociedade dos homens. Se isto acontece é porque a sociedade está, de alguma forma, doente. Multiplicam-se os abates de cavalos porque os donos não têm dinheiro para os sustentar nos tempos correntes. Segundo a imprensa em 2012 cerca de três mil tiveram esse triste destino. Parece que muitos se lamentam e choram pelo facto de terem sido forçados a mandar abater cavalos de pura raça lusitana. E isto é terrível por duas razões. Primeiro porque se destruiu a economia do país ao ponto de acontecerem situações destas. O cavalo lusitano deveria ser considerado e assumido por todos como património nacional. Em segundo lugar é lamentável que os donos antes de os enviarem para o matadouro, vendidos pelo preço da carne, não publicitem a intenção de os ceder por esse mesmo preço a quem esteja interessado em criá-los. Até aceito como hipótese que não aparecessem interessados, mas valia a pena o esforço desta última tentativa para salvar a vida dos animais de que tanto dizem gostar. Hoje mandam-se cavalos para o matadouro porque se tornaram um peso económico. Parece que uma sociedade pobre terá de ser uma sociedade sem cavalos. Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de setenta e quatro os cavalos foram mandados para os matadouros por pseudo-revolucionários que viram neles sinais e manifestações de uma classe que era necessário também abater. Os inebriados revolucionários de então olharam para os cavalos e viram em todos eles o mesmo: símbolos de uma classe que oprimia o povo ¬– esse, andava de burro ou de muar – ao ponto de os puro-sangue lusitanos da coudelaria de Alter serem vendidos aos açougueiros de Badajoz. No pós-revolução Portugal era um país sem cavalos mas com muitos burros. Hoje a espécie asinina está em regressão, os cavalos abatem-se mas os burros de duas patas proliferam.