Os pensamentos são como as ondas do mar. Vão e vêm, ora suaves, tenuíssimos... ou então rebentam em nós com a fúria das tempestades. São sempre criadores. Como a Sétima Sinfonia do génio de Bona.
Noutros fóruns tenho dito várias vezes que não acredito neste seleccionador nacional. Ao cinzentismo de Queiroz, ao seu futebol de certezas matemáticas ( mas o futebol não é, antes de mais, um jogo? ), prefiro mil vezes o tropicalismo mestiço de “Filipão” Scolari, os seus erros tácticos, as suas zurzidelas em jornalistas ignaros, e todos os seus “afilhados”. Mas, pelo menos, divertia-me a ver futebol.
E também será bom não esquecer que Scolari ajudou este País a redescobrir-se, a "achar-se" através do futebol e a libertar-se do fado-tristeza que ancestralmente o assola. Para a história futura ficarão aqueles momentos em que este povo sentiu um grande orgulho em ser português.
Futebol sem imaginação, sem arte, sem alegria, não é futebol ...é trabalho, monótono e aborrecido.
Queiroz, provavelmente, a perguntar ao técnico principal como ganhar um jogo. Para mal da nossa selecção é isso mesmo que nos faz falta: um Técnico Principal, pois adjunto qualificado já lá temos...
Hoje o Verão está envergonhado. O céu pinta-se de manchas cinza e negro, caíram uns chuviscos brincalhões e o sol vai acenando numa dança de esconde-esconde com as nuvens. Mas está algum calor, um pouco abafado. O Verão está mesmo envergonhado... talvez sinta saudades da Primavera. Quarenta anos atrás, 1968, vinte e um dias do mês de Agosto. Os tanques soviéticos irrompem por Praga, um jovem de quinze anos enfrenta-os, a metralha deixa no chão um corpo moribundo numa poça de sangue. O sonho de um socialismo de rosto humano, gerado no seio da própria alma comunista, estava desfeito. O despotismo e autoritarismo da URSS estavam de novo repostos. O sonho checo de uma Primavera no Verão nunca se realizaria. O comunismo soviético ensaiou nesse dia os primeiros passos de um caminho que o levaria ao seu fim. Mas estas Primaveras extemporâneas são quase sempre sonhos e deixam-nos, impressos, sabores amargos e muita nostalgia. Lembro-me tão bem ! Praga foi ocupada, mas eu, nesse dia, iniciei a minha libertação e outras Primaveras vivi.
Smetana, homenagem ao rio Vltava (Moldava) que Praga abraça. E a nostalgia sempre presente.
Este Estio, embora estranho e imprevisto - o Tempo já não é o que era, dizem os mais velhos - vai decorrendo calmo. Calor suportável e poucos fogos, até ver. Menos lucros na Banca, a Bolsa em queda e os endinheirados deste País, aflitos, coitados. Política caseira sem sal, mas lá fora Obama entusiasma. A morte, seja em atentados, no Iraque ou na Turquia, ou com outra forma em qualquer parte do Mundo, não nos afecta. Tomamo-la como aperitivo às refeições. Vamo-nos portuguêsmente lamentando de tudo e todos - também se assim não fosse não havia Fado - fingindo que está tudo bem. É do tempo. Deste e do outro que está para vir...
O melhor é ouvirmos Vivaldi. De "As Quatro Estações",Concerto nº2, em Sol menor, "O Verão"
No domingo, a Final. Com muita emoção e ritmo, cumpriu-se o futebol. A Alemanha vergou-se à classe espanhola e saiu derrotada, mas, humildemente, reconheceu a superioridade dos iberos. Continuo a pensar que esta Alemanha estava perfeitamente ao alcance de Portugal, se este fosse mais humilde e se Scolari tivesse feito os trabalhos de casa em condições. Resta-nos a alegria da vitória de Espanha, pelo sangue ibérico que nos aproxima. Perante uns alemães mais “quentes” que o habitual, perturbados e pouco esclarecidos, Espanha com classe, calma e alma foi uma intérprete superior da sua arte. A Europa ficou rendida.
A festa terminou, as emoções regressaram à sua ordem. Então, com classe, calma e alma,Astúrias — lindíssimas — de Isaac Albéniz, interpretada pelo magistral John Williams.
Muitos compositores europeus sentiram-se arrebatados pelo encanto e exuberância de Espanha e do seu povo. Transformaram essas impressões em peças musicais que se tornaram famosas e algumas passaram a fazer parte inquestionável de qualquer repertório musical de temática espanhola. Também os grandes compositores russos não fugiram a esse encanto. Tchaikovsky, por exemplo, compôs esta Dança Espanhola para o seu famoso bailado O Lago dos Cisnes.
Hoje, em Viena, a selecção espanhola exibiu-se em grande estilo perante a sua adversária russa. A arte foi primorosa e os artistas estiveram em plano simplesmente magistral. Tenho a certeza que toda a Rússia voltou mais uma vez a encantar-se com esta “dança espanhola”. Será que domingo ouviremos cantar “que viva Espanha"