Os pensamentos são como as ondas do mar. Vão e vêm, ora suaves, tenuíssimos... ou então rebentam em nós com a fúria das tempestades. São sempre criadores. Como a Sétima Sinfonia do génio de Bona.
27 novembro, 2011
FADO Património da Humanidade
Três gerações, três grandes fadista: Amália Rodrigues, teria hoje noventa e um anos se estivesse entre nós; Teresa Tarouca, fará setenta anos em Janeiro próximo; Cristina Branco, com trinta e oito anos, na plenitude da sua criação artística.
O Fado tem passado, presente e futuro.
23 setembro, 2011
José Nisa. Morreu um Homem da Liberdade.
Morreu o José Nisa. Ainda estou um pouco incrédulo. Conheci-o em 1976 e, desde esse, dia habituei-me a admirá-lo como político, como artísta, como homem de cultura e, acima de tudo, como um ser humano de inegável elevação. Há poucos meses atrás encontrei-o, pela última vez, em Santarém. Quisemos saber um do outro e despedimo-nos com um abraço. A sua morte é uma grande perda.
15 junho, 2011
Edvard Grieg - Amanhecer
O compositor Edvard Grieg nasceu a 15 de Junho, no ano de 1843, em Bergen, cidade norueguesa onde também viria a morrer no ano de 1907.
Da sua vasta obra, destaco o arranjo musical que fez para uma peça teatral, Pear Gynt, do escritor seu compatriota Henrik Ibsen. A peça foi apresentada pela primeira vez em Oslo no ano de 1876. Atualmente a música de Pear Gynt de Grieg é tão ou mais popular que a própria obra escrita.
Bergen, na atualidade.
De volta.
E esta espécie de férias sabáticas - forçadas - terminaram. É a vida, como diria um certo homem que já usou um simpático bigode. É mesmo assim, é a Vida - aqui em maiúscula porque se refere não às singularidades da existência mas, tão só, ao misterioso sopro que transforma o coração num incrível instrumento rítmico - que por vezes se joga nas roletas, vermelhas dia, negras noite, das partidas que ela nos faz na sua infinita capacidade de surpreender o mais atento - ou o que pensa que o é - e de nos mostrar cenários nunca pensados - porque pensávamos conhecer os atores - mas afinal o que nos fazia falta era conhecer o encenador, aquele que, na penumbra, vai mudando a paisagem que temos frente aos nossos olhos, que se abrem de surpresa, que se esbugalham com a própria cegueira. Então, depois de tanto olhares os atores, não era previsível um cenário assim, um dia? Era, era, mas não vias.
Tudo bem, voltei. As férias (sabáticas?) para o diabo - cuidado que ele, o diabo, sempre se disfarçou de anjo - e voltemos ao reconfortante ritmo da batida interior que a cada inspiração-expiração nos vai prometendo a quietude e o caminho certo a percorrer.
E, se estamos de volta a "nossa" Sétima Sinfonia também está.
Tudo bem, voltei. As férias (sabáticas?) para o diabo - cuidado que ele, o diabo, sempre se disfarçou de anjo - e voltemos ao reconfortante ritmo da batida interior que a cada inspiração-expiração nos vai prometendo a quietude e o caminho certo a percorrer.
E, se estamos de volta a "nossa" Sétima Sinfonia também está.
05 outubro, 2010
VIVA A REPÚBLICA!
Para que conste:
Prefiro um Presidente da República convencido, emproado, calculista mas indeciso – com mais ou menos tabus -, sem o mínimo sentido de Estado e cujas preocupações sociais não passam de meros compromissos de agenda, PORQUE PASSADOS 5 ANOS SEMPRE POSSO CORRER COM ELE, a um rei tosco, bruto, também sem sentido de Estado mas sentado no Estado, insensível e ignorante ( sim, sim, houve tantos ao longo da história) e QUE TERIA DE ATURAR só porque lhe corre nas veias comatoso sangue azul (?) e esperar que, por algum milagre da natureza, o dito conseguisse procriar um produto menos mau para nos governar.
Livra! Antes o Cavaco!
Cartaz de proclamação da República.
José Relvas proclamando a República na varanda da Câmara Muinicipal de Lisboa.
28 setembro, 2010
O Mistério da Camioneta Fantasma
No passado domingo estivemos no Cinearte para ver a peça apresentada pelo teatro A Barraca O Mistério da Camioneta Fantasma, de Hélder Costa.
Inserida no programa de comemorações do Centenário da República, a peça tem por tema de fundo os assassínios ocorridos em 19 de Outubro de 1921 que eliminaram entre outros, António Granjo, Carlos da Maia e Machado Santos, figuras prestigiadas do republicanismo. O roncar da camioneta fantasma que, transportando os assassinos, percorreu as ruas de Lisboa naquela noite, é a alegoria do terror.
A peça enquadra, com humor e discernimento, a sociedade dividida da época, com o povo posto perante novos e desconhecidos tempos - democracia e a liberdade eram ainda conceitos relativamente novos - e os partidários da deposta monarquia a conspirarem, por todos os meios, para a recuperação dos seus privilégios, explorando as debilidades, as divisões e a inépcia dos dirigentes republicanos.
E como esses agitados tempos foram o prenúncio do 28 de Maio que imporia à Nação o Estado Novo, nem o António e a sua governanta Maria faltaram à chamada, para acabar com o “reviralho”.
Excelentes nos seus papéis Rita Fernandes, Luís Thomar, João d’Ávila e restante elenco.
Um tema que foi tabu nacional durante décadas, abordado com seriedade e muito humor. Que mais querem? Não percam, vão ver.
Inserida no programa de comemorações do Centenário da República, a peça tem por tema de fundo os assassínios ocorridos em 19 de Outubro de 1921 que eliminaram entre outros, António Granjo, Carlos da Maia e Machado Santos, figuras prestigiadas do republicanismo. O roncar da camioneta fantasma que, transportando os assassinos, percorreu as ruas de Lisboa naquela noite, é a alegoria do terror.
A peça enquadra, com humor e discernimento, a sociedade dividida da época, com o povo posto perante novos e desconhecidos tempos - democracia e a liberdade eram ainda conceitos relativamente novos - e os partidários da deposta monarquia a conspirarem, por todos os meios, para a recuperação dos seus privilégios, explorando as debilidades, as divisões e a inépcia dos dirigentes republicanos.
E como esses agitados tempos foram o prenúncio do 28 de Maio que imporia à Nação o Estado Novo, nem o António e a sua governanta Maria faltaram à chamada, para acabar com o “reviralho”.
Excelentes nos seus papéis Rita Fernandes, Luís Thomar, João d’Ávila e restante elenco.
Um tema que foi tabu nacional durante décadas, abordado com seriedade e muito humor. Que mais querem? Não percam, vão ver.
17 agosto, 2010
Ruy Duarte de Carvalho - Sinfonia do Novo Mundo
“Desembarquei pois em Moçamedes, fixei calendários com os chantres da sociedade civil, preparei o jipe e larguei, naturalmente para o mato. Acompanhado pelo meu assistente Paulino e pelo seu sobrinho Gregório,…”
“Adoptámos a rota do Pico do Azevedo, como te proponho agora, porque embora fique mais curto o caminho pelo Caraculo, virando aí à direita e passando pela Viganjanganja, o meu deserto, desde a infância, é o que passa ao lado da Damba e do Scott, atinge o Morro Negro, galga as Pedras-Salvadoras e se desdobra em estepes até aos Paralelos, Vitumba, Delfina, Kanehuia. E eu vinha cheio de falta daquilo.”
“Encostámos ,como é costume ao que resta das instalações dos fiscais de caça, …”
“Dessas actuais ruínas, paredes só cravejadas por tiros assestados às pinturas de animais que decoravam as varandas, vê-se, ligeiramente abaixo e as uns quatrocentos metros, o tal Pico do Azevedo. “
“É este um local, sobretudo um horizonte, circular perfeito assim, em que inscrevo desde sempre uma boa parte da minha ficção pessoal… É tudo horizontal e extenso, rasgado, desdobrado em rasgos de visão, é a paisagem que conduz o olhar e há uma leitura só, possível, para uma largueza assim tamanha, tal dimensão alargada: largar o olhar pela esteira oblíqua dos ocres que se cruzam vastos, rasteiros, velozes, sem fim nem começo, uns derramados de outros, depois soltos, a renovar matizes ao sabor do vento. É por assim dizer o umbigo do mundo, para mim, ali. Sento-me lá e decreto o silêncio, fico a ouvir só, a escutar o vento …”
“Trazia na bagagem (…) um leitor de CD’s, duas pequenas caixas de amplificação, as pilhas necessárias e a nona sinfonia de Dvorjak, a que é dita, isso mesmo, do Novo Mundo.”
“De projectos que se urdem mas não é para cumprir, do meu arsenal consta um longo poema para desenvolver paralelo a esta sinfonia. Ao primeiro acorde do primeiro andamento corresponde o acordar do poeta no meio de tal paisagem, naquela exacta encosta. O poeta acorda, possui-se do que vê. As frases musicais constituem-se como referências sólidas, concretas, palpáveis, volumes, acidentes, aquela pedra que eu sei que guarda água, ao longe aquele declive que eu sei que leva ao sal, aquela escassa sombra que me abrigou na infância, essa remota dobra, na distância, que me ensinou a desdobrar o ser , a experimentar sem estar, ubíquo, perdido para o mundo do tino comum. Sei tudo de cor pela sinfonia fora, servido à toa pela mais completa e árida incultura musical, e falta de ouvido e tudo, mas sei exactamente quando, em que preciso som, de tal décor emerge algum pastor vagante, que avança para mim e depois me conduz já dali para a frente para fazer-me ouvir, entre os seus e o seu gado, e à beira do seu fogo, todo o derrame do segundo andamento, a torrente morosa da história a revelar-se, memórias, migrações, pastagens alcançadas após longas viagens, percursos seculares, milenares até, rumos traçados por gerações há muito extintas, legados os destinos ao tempo que há-de vir. Um largo sem margens. Donde se acorda para o sherzo, molto vivace, de um quotidiano animado pelo verde recente dos pastos refeitos e pela urgência viril das transumâncias. Finalmente a monumentalidade do allegro com fuoco, Paramount Films, Califórnia SA e avante Miguel Strogoff.”
CARVALHO, Ruy Duarte , “Vou lá Visitar Pastores” Ed. Cotovia, 2000. Pág. 104 a 107.
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